O medo raramente se anuncia como medo.
Ele costuma se apresentar como prudência,
como excesso de cálculo,
como uma vigilância que se acredita necessária.
Temores não nascem apenas do perigo,
mas da imaginação insistente
de tudo o que poderia ruir
se algo saísse do lugar previsto.
A angústia, por sua vez, não aponta um objeto.
Ela se espalha.
É a sensação de estar diante de algo
sem contorno definido,
como quem pressente uma perda
antes mesmo de saber o que poderia ser perdido.
Há quem passe a vida tentando eliminar o medo.
Mas o medo não pede extermínio.
Pede escuta.
Quando ignorado, ele se infiltra.
Quando ouvido demais, paralisa.
A maturidade talvez esteja
em reconhecer sua presença
sem permitir que ele governe.
Não é coragem a ausência de temor.
É a capacidade de permanecer
apesar dele.