Vivemos em um mundo que se desencontrou das próprias emoções.
As pessoas falam alto, mas sentem baixo.
Carregam uma pobreza de afeto que não admite,
e uma riqueza de julgamentos que distribuem sem pudor.
É curioso — e triste — como nos tornamos peritos em apontar falhas,
mas analfabetos quando o assunto é acolher dores.
Sabemos rotular o outro com precisão cirúrgica,
mas tropeçamos quando tentamos nomear a nossa própria tristeza.
Há quem caminhe por aí com o peito vazio
e a língua afiada.
Corações desnutridos de ternura,
mas bem alimentados de opinião.
Gente que nunca olha para dentro
porque é mais fácil mirar a lupa no mundo
do que no próprio espelho.
E assim seguimos: emocionalmente famintos,
mas satisfeitos com migalhas de razão.
Ricos de julgamento, pobres de gentileza.
Tão preocupados em parecer fortes
que esquecemos de ser verdadeiros.
Talvez o resgate comece quando aceitarmos que sentir não é fraqueza.
Que vulnerabilidade não é defeito.
E que o outro não precisa ser combatido —
precisa ser compreendido.
Porque, no fim, não é o mundo que está duro demais;
somos nós que esquecemos o caminho de volta à presença,
ao afeto,
ao humano que ainda insiste em respirar dentro de cada um.