CHERUBINI
Histórias sobre o que parece real — até deixar de ser
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O atraso que não aparece no relógio
Há atrasos que nenhum relógio registra.
Você chega no horário, cumpre prazos, responde a tempo.
Mas, por dentro, algo vai ficando para trás.

Não é atraso de agenda.
É de si.

A vida segue organizada, funcional, aparentemente em dia.
Só que a presença começa a falhar.

Você está onde deveria estar,
faz o que precisa ser feito,
mas sente que chegou sem ter chegado inteiro.

Esse atraso não gera cobrança externa.
Ninguém aponta.
Ninguém reclama.

Ele acontece em silêncio —
e talvez por isso demore tanto a ser percebido.

É quando decisões são adiadas sem data.
Quando vontades ficam para depois.
Quando o corpo cumpre,
mas a escuta interna é sempre interrompida
por algo mais urgente.

O relógio segue marcando horas.
Mas o tempo vivido começa a encolher.

Porque viver não é apenas ocupar os dias.
É conseguir estar dentro deles.

E quando isso não acontece,
instala-se um tipo estranho de defasagem:
a pessoa chega,
mas a si mesma, não.

Talvez esse seja o atraso mais perigoso.
Não aquele que compromete compromissos,
mas o que compromete a própria presença.

E ele não se resolve com pressa.
Nem com organização.
Nem com produtividade.

Às vezes, tudo o que ele pede
é uma pausa que não seja técnica,
um silêncio que não precise ser preenchido,
e a coragem de perceber
que seguir no ritmo certo
não garante estar no tempo certo.
CHERUBINI
Enviado por CHERUBINI em 29/01/2026
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