A República de Algures
Na República de Algures, o povo mandava.
Não era apenas uma opinião. Estava na Constituição.
A cada quatro anos, o povo escolhia quem mandaria no lugar dele.
Chamavam esse dia de Festa da Liberdade.
A liberdade, em Algures, era coisa séria.
Cada cidadão tinha o direito de escolher um candidato, escolher outro, não escolher nenhum ou declarar que não gostava de candidato algum.
Só não podia escolher não participar.
Quem ficasse em casa precisava se explicar. Dependendo da explicação, poderia ser punido.
Era compreensível.
Afinal, ninguém tinha o direito de faltar à Festa da Liberdade.
Terminada a festa, os eleitos seguiam para o Palácio e o povo voltava para casa.
Na segunda-feira, para comemorar que era soberano, voltava também ao trabalho.
No Palácio, começava a difícil tarefa de descobrir o que o povo queria.
Às vezes o povo dizia.
Isso ajudava.
Outras vezes dizia o que não queria.
Isso atrapalhava.
Os representantes explicavam que governar não consistia simplesmente em fazer a vontade do povo.
O povo achava razoável.
Se governar fosse fazer a vontade do povo, afinal, para que serviriam os representantes?
No Palácio havia dois grandes grupos: os Quadrados e os Redondos.
Os Quadrados explicavam que Algures seria um lugar muito melhor se não existissem os Redondos.
Os Redondos concordavam, com uma pequena alteração geométrica.
De vez em quando apareciam os Triângulos.
Os Triângulos não eram nem Quadrados nem Redondos.
Faziam questão de deixar isso claro.
— Somos diferentes.
Eram mesmo.
Tinham três lados.
Sua principal característica era apontar.
Quando os Quadrados estavam em posição vantajosa, apontavam para os Quadrados.
Quando os Redondos ofereciam melhores perspectivas, apontavam para os Redondos.
Os Triângulos chamavam isso de equilíbrio.
E equilíbrio era muito importante, principalmente para quem precisava permanecer em pé.
Apesar das diferenças, havia momentos em que Quadrados, Redondos e Triângulos se entendiam perfeitamente.
Curiosamente, as maiores demonstrações de união aconteciam quando o assunto dizia respeito aos próprios representantes.
Nessas ocasiões, as formas perdiam importância.
Não havia lados.
Não havia pontas.
Havia apenas representantes.
Era bonito.
Algures sempre se orgulhara da capacidade de seus representantes de deixar as diferenças de lado quando realmente importava.
O povo, entretanto, não tinha a mesma facilidade.
Quadrados e Redondos discutiam nas ruas, nas casas e nas tavernas.
Quando um representante Quadrado fazia alguma coisa errada, seus defensores perguntavam:
— E aquele Redondo?
Era uma pergunta importante.
Tão importante que frequentemente fazia todos esquecerem o Quadrado.
Os Redondos haviam desenvolvido exatamente a mesma técnica.
Funcionava muito bem.
Assim, enquanto os representantes cuidavam da República, o povo cuidava uns dos outros.
Fiscalizava opiniões, amizades, frases, bandeiras e preferências geométricas.
De vez em quando alguém sugeria:
— Não deveríamos fiscalizar os representantes?
Mas geralmente ninguém ouvia.
Estavam discutindo sobre os Redondos.
Ou sobre os Quadrados.
Ou tentando descobrir para onde os Triângulos estavam apontando naquela semana.
E assim Algures prosperava.
Ou não.
Dependia de quem contava.
Quatro anos depois, os representantes saíam novamente do Palácio.
Visitavam mercados.
Entravam em casas simples.
Abraçavam velhos.
Pegavam crianças no colo.
Descobriam bairros inteiros que não constavam de seus mapas durante os três anos anteriores.
E ouviam o povo.
Ouvir o povo era uma antiga tradição de Algures.
Acontecia a cada quatro anos.
Então chegava novamente a Festa da Liberdade.
Quadrados explicavam que uma vitória dos Redondos seria o fim de Algures.
Redondos explicavam que uma vitória dos Quadrados também.
Os Triângulos aguardavam para ver para onde seria mais prudente apontar.
E o povo de Algures ia às urnas orgulhoso.
Afinal, naquele dia, era ele quem mandava.
CHERUBINI
Enviado por CHERUBINI em 04/10/2026